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A Marujada e a Estética do Imaginário - Paes Loureiro

 

 "A Marujada nunca poderá ser transportada para Belém, porque apenas Bragança, somente nessa cidade, ela encontra consistência, só lá possui dimensão própria."

O Papa Bento XVI, cuja formação é de filosofia teológica, afirma, consoante publicado na revista Isto é, que a dança não constitui uma forma de atuação da liturgia da igreja. Analisando-se o ponto de vista externado pelo chefe da igreja católica, fácil chegamos à conclusão de que tal afirmação choca-se com a cultura amazônica, que é uma cultura da estética do imaginário. Se compararmos, por exemplo, a cultura amazônica com a cultura do nordeste, o imaginário deste é místico. Na cultura amazônica não tivemos a figura de um Conselheiro nem de um Padre Cícero.

A Lenda do Boto é uma lenda que impressiona os sentidos. Segundo ela, o boto pode se transformar num belo rapaz, o qual vestido de branco, de chapéu, e cheio de sensualidade, vai às festas em noite de lua cheia para namorar as moças de lugarejos ribeirinhos. A aqui a aparência da beleza é estética. A Lenda da Boiúna é o nome dado à cobra grande que devora os animais perto do rio, em pequenos vilarejos. Reunidos, os moradores, afim de constatarem a sua existência, construíram um banco, o qual, todo iluminado é numa noite escura, conseguem avistar a boiúna. Aqui sobressai a dimensão do encantamento sensível.

A mitologia, assim, é toda dominada pela dimensão estética. Na região do Pacoval, em Alenquer, comunidade remanescente de quilombo, onde acontece o ritual conhecido como a dança do Marambiré, a concentração é de negros. No culto a São Benedito, a tiara na cabeça do santo constitui um elemento estético. Em Oriximiná, há o círio fluvial noturno, no qual saem vários barcos, e milhares de velas são acesas boiando nas águas do rio Trombetas. A procissão do santo passa no meio dos barcos dispostos de cada lado, formando um imenso corredor iluminado nas águas do rio. Há uma visão deslumbrante daquele cenário.

Na Marujada de Bragança, o vestuário, todo o conjunto da indumentária, roupas, chapéus, penas, miçangas, rendas, fitas multicoloridas, é sempre uma relação estética. As palmeiras imperiais existentes à beira do rio Caeté constituim um projeto de preservação da cidade, assim como acontece em Belém com suas mangueiras. A missa, procissão, todo o ritual nela encontrado, pode ser comparado com o Marambiré, já as músicas e danças da Marujada são realizadas no barracão próprio para esse fim. A Marujada nunca poderá ser transportada para Belém, porque apenas Bragança, somente nessa cidade, ela encontra consistência, só lá possui dimensão própria.

Fazendo-se uma reflexão acerca da afirmativa da Papa Bento XVI de que a dança não faz parte da liturgia da igreja, ela se contrapões à própria igreja no que concerne à sua arquitetura: a pintura, a poesia, a música, estão ali presentes. O canto gregoriano, por exemplo, saiu da igreja já há algum tempo, já não mais se cultiva. Entretanto, há movimento atual para tentar ressuscitá-lo. Segundo o Papa, a dança não pode fazer parte da igreja porque é ligada ao corpo, nela há uma atração de corpo a corpo.  O teatro cabe na igreja: o vestuário, toda a festa de coroação do novo Papa, assim como o sepultamento de João Paulo II, tudo gerou em torno de uma celebração, treinada em todos os seus detalhes, ou seja, há toda uma encenação, todo um ritual colocado em prática, como no teatro. Mas, tem toda razão Bento XVI. A sua afirmação não constitui uma restrição à dança. O fato é que ela – a dança -  devia a atenção do ritual litúrgico da igreja. Tem uma lógica esse posicionamento, porém não se aplica à Marujada de São Benedito de Bragança, ela não é de fundo religioso. 

Autor: João de Jesus Paes de Loureiro

NOTA:

Texto publicado na da Revista Bragantina, páginas 20 a 22 em março de 2006.

Referência:

Revista Bragança: Academia Bragantina de Artes e Cultura Popular – ABACP. Bragança, Pará, Brasil – Ano IV – nº 03 – Março/2006. 

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Aluno Repórter - A Imprensa na Escola Rádio e TV


O Projeto Aluno Repórter surgiu efetivamente no ano de 2002/03 como um protótipo de um projeto de Rádio Escola, onde os alunos do professor Beto Amorim (recém contratado pela SEDUC) foram convidados por ele a participar do projeto como alunos repórteres na cobertura da Feira das Ciências da Escola Estadual Rio Caeté. Até aquele momento, o prof. Beto Amorim trabalhou como radialista, desde o ano de 1992 na Rádio Pérola FM 92,1. Enquanto os demais professores apresentavam projetos científicos, o prof. Beto Amorim seus alunos e um professor voluntário (prof. Cleidson Paiva) divulgavam os informes na Rádio Escola. 
A "rádio” foi construída juntando equipamentos emprestados por amigos e familiares do
prof. Beto Amorim, incluindo uma caixa de som que ficava suspensa num poste de iluminação da escola. A Escola Rio Caeté era muito discriminada na cidade pelo fato de estar situada na periferia. As demais tecnologias existentes na escola naquele momento (computador e internet) não ajudavam muito, pois haviam poucos professores com conhecimentos técnicos para realizar projetos que motivassem os alunos a desenvolver suas habilidades e competências. As aulas estavam restritas à sala de aula com quadro e giz.
A ideia de levar adiante este projeto e dar mais visibilidade e abrangência às outras escolas de Bragança, levou o professor Beto Amorim e o professor Aylton Rocha a apresentarem um projeto de um programa de rádio à direção da Fundação Educadora de Comunicação, onde a partir do ano de 2008 passaram a apresentar um programa de rádio chamado Bê-a-Bá, na Rádio Educadora FM 106,7. Nessa parceria com o prof. Aylton Rocha, passaram a executar o Projeto Aluno Repórter durante o programa de rádio. Antes disso, prof. Beto Amorim já havia trabalhado voluntariamente na Fundação Educadora desde a inauguração da Rádio Educadora FM no ano de 2002-2005 apresentando um dos programas da grade de inauguração.
 

Agora, toda a região podia ouvir as produções dos Alunos Repórteres, reportando os acontecimentos de suas escolas. No ano seguinte, o projeto ganhou um horário na Rádio Educadora AM 1390 KHZ. No início foi cedido o horário de 21:00 às 22:00. Mais tarde, passou para o horário de 08h00 às 09h00. Naquele momento, foram convidados alguns profissionais da Rádio Educadora e de outras rádios locais para, de forma voluntária, realizarem oficinas e palestras sobre o rádio para os alunos participantes. A partir daí os alunos passaram a participar do programa de rádio do projeto como alunos repórteres, reportando os principais acontecimentos de suas escolas.
 
 
O programa era apresentado pelos professores Beto Amorim e Aylton Rocha. A cidade de Bragança, as comunidades e os municípios vizinhos, passaram a ouvir as boas ações que as escolas estavam realizando. Os belos projetos de professores que, até então, estavam no anonimato. Percebemos uma clara elevação da autoestima dos alunos e de muitos professores envolvidos no processo. No ano seguinte, estendemos a proposta para todos os municípios de jurisdição da 1a URE Bragança: Bragança, Tracuateua, Augusto Corrêa, Viseu e Cachoeira do Piriá. Professor Aylton Rocha permaneceu na coordenação até o ano de 2012. Nesse momento a SEDUC havia efetivado nossa lotação no Núcleo Tecnológico Educacional de Bragança (NTE Bragança), para que pudéssemos realizar exclusivamente o Projeto Aluno Repórter nas escolas Bragantinas. Até esse ano já havíamos realizado atividades também com o audiovisual, aproveitando a estrutura de TV que a Fundação Educadora de Comunicação possui. 
 

Nossos alunos já realizavam produção de conteúdo audiovisual que eram exibidos na programação local da TV Educadora. A partir daí, juntou-se à coordenação, os professores Diego Fernando e a Professora Socorro Braga. Juntos conseguimos manter o bom funcionamento das atividades envolvendo cada vez mais os participantes com as atividades do Rádio, TV e Internet. Infelizmente, prof. Socorro Braga faleceu no ano de 2021, vítima da Covid-19. Uma grande perda para o nosso projeto. Para ocupar o seu lugar, convidamos a professora Adriana Barros, que já realizava um excelente trabalho com a prof. Socorro Braga, envolvendo diversas tecnologias em favor da aprendizagem.
No decorrer dos anos encontramos muitos desafios para manter o funcionamento do projeto, especialmente para manter o funcionamento dos nossos Laboratórios de Rádio e Tv, localizados na Fundação Educadora. Muitas pessoas já nos criticaram ao longo da caminhada ao dizerem coisas, tipo, "vocês trabalham tanto pro governo e ganham o mesmo que os outros” ou "os alunos da escola pública não tem jeito, é só problema! ”, ou que nas escolas públicas não acontece nada. Engana-se quem pensa assim, pois já testemunhamos fatos incríveis a partir das iniciativas dos nossos alunos.

Recentemente, durante este período de pandemia, um dos nossos alunos planejou e realizou um Live com a consagrada Jornalista e Escritora Cristina Serra. No ano de 2010, um aluno de uma escola da periferia escolheu um problema crônico de sua escola
(falta de energia durante à noite em parte da escola) como pauta para sua reportagem. Como resultado de sua iniciativa, os funcionários da concessionária de energia ouviram a matéria no nosso programa e providenciaram o reparo. Um outro aluno nosso conquistou um prêmio nacional da Câmara dos Deputados, em Brasília, com a produção de um vídeo sobre a Lei Maria da Penha.Temos plena certeza que nosso trabalho contribui para a formação integral de adolescentes, jovens e adultos e, consequentemente, para o mercado de trabalho em geral da região. Podemos constatar isso com a presença dos nossos ex-alunos em emissoras de TV locais e de outros municípios, além de produtoras de cinema.
No ano de 2022 resolvemos inserir atividade de
Robótica nas ações do projeto. Prof. Adriana Barros é quem coordena. Agora, nossos alunos repórteres também estão desenvolvendo programação de robôs que começam com uma grande preocupação ambiental ao trabalharem com materiais recicláveis.
Graças à ações como essa é que já conquistamos as seguintes premiações: Edital 022/2008 - FAPESPA - Projeto Aluno Repórter - RÁDIO Edital 022/2008 - FAPESPA - Projeto Aluno Repórter - TV; Prêmio NAVEGATUBE 2009 - 2° Lugar; Edital Ministério das Comunicações/UFPA em 2012; 14° Prêmio Escola Voluntária - 2° Lugar; Prêmio Itaú-Unicef 2015 - Premiado Regional (Norte); Prêmio Itaú-Unicef 2017 - Premiado Regional (Norte); Prêmio Nacional Itaú-Unicef 2017; Educador Destaque - Prêmio Escola Voluntária do Grupo Bandeirantes-SP; Rotary Club de Bragança-PA - Diploma Reconhecimento Ideal de Servir; Título de Causas Imortais - Academia Letras do Brasil - Seccional Bragança e Honra ao Mérito - Câmara Municipal de Bragança. Nossa última premiação foi a do Programa Criança Esperança, da Rede Globo e Unicef em 2020.
Autor: Beto Amorim ( Professor e Radialista)

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